Toque de Caboclo

Toque de Caboclo do Ile Ase Baralegi – Candomblé Ketu

O Candomblé é uma religião fundamentada em espiritualidades africanas que se reformataram no Brasil ao longo da Diáspora. Apesar das várias semelhanças com o Xangô (Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Alagoas e Sergipe), com o Tambor de Mina (do Pará e do Maranhão), com o Batuque (do Rio Grande do Sul), ou mesmo Ifá, Cabula, Catimbó e Calundu, a palavra Candomblé refere-se especificamente ao conjunto das religiões tradicionais brasileiras de matriz africana identificadas sob três nações: Ketu, Jeje e Angola. Embora se constate de fato nestas espiritualidades a presença marcante de elementos éticos e estéticos correspondentes aos troncos étnico-linguísticos nagô-iorubá, fon-ewê e bantu-umbundo, respectivamente, estas religiões fusionam componentes ainda de outros povos e idiomas. O termo “nação” neste contexto corresponde à identidade, à herança cultural e espiritual de cada terreiro, podendo também distinguir-se em outras ramificações destas três linhagens principais.

Povos de inúmeras origens do continente africano foram forçados pelo colonizador europeu a conviver no território brasileiro sob tortura e trabalho forçado, sendo que proibir práticas religiosas e separar indivíduos da mesma origem, família ou idioma eram as principais táticas para manter a opressão e prevenir rebeliões. Não obstante, a espiritualidade destes povos conduziu vários processos de aquilombamento, entre eles, os que consolidaram posteriormente os candomblés na Bahia que se espalharam por todo o Brasil e por todo o mundo. Candomblecistas e estudiosos não concordam inteiramente nas razões, mas afirmam unanimemente que o Candomblé Ketu é a nação mais numerosa, nacional e internacionalmente. Ketu é essencialmente caracterizado pela reverência ao Criador, Olorum, e o culto aos Orisas.

Segundo levantamento da Fundação Palmares em 2018, o Distrito Federal possui aproximadamente 330 terreiros das diferentes linhagens de candomblés, umbandas e outras matrizes africanas. Nesta pesquisa foi registrado o Ile Ase Baralegi, liderado pelo Babalorisa Cristiano de Omulu-Ijikaye, filho do fundador da Casa, Pai Tito de Omulu. A trajetória da casa começa em 1967 no Cruzeiro, se instala em Taguatinga em 1972 até que se estabelece finalmente em 1980 em Santo Antônio do Descoberto, município goiano no Entorno do Distrito Federal. Para este acervo gravamos um Toque de Caboclo em março de 2017 – aqui publicado somente o início do ritual, imediatamente anterior à incorporação dos caboclos, pois a Casa nunca permite nenhum tipo de gravação das entidades incorporadas. Esta festa é uma das ocasiões – junto da Festa de Erê – em que as entidades presentes não são os Orisas (deuses africanos). Os Caboclos são antepassados brasileiros que se tornaram veneráveis, por isso, tudo é rezado e cantado em português brasileiro – e as próprias entidades cantam, conversam e orientam os filhos da casa e os visitantes. Pitar, defumar e beber a Jurema (bebida especial da festa feita com cachaça, rapadura, vinho, jurema e ervas) são as marcas do Toque de Caboclo, noite afora até “cantar pra subir” e servir a feijoada de encerramento.

Áudio Defumação e Início do Toque de Caboclo (Ile Ase Baralegi, Santo Antônio do Descoberto-GO, 15.03.2017
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